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Os brasileiros estão comendo melado e se lambuzando com o crédito
fácil. Anos atrás, para comprar uma televisão era preciso ter avalista,
fiador, preencher uma ficha com toda a árvore genealógica da família.
Hoje, não tem que ter nada disso. A estabilidade econômica, conseguida
depois do Plano Real, e o aumento do poder de compra dos trabalhadores
desencadearam uma abertura do crédito nunca vista "na história deste
país". Os brasileiros foram às compras. Os menos cuidadosos ficaram com
as dívidas.
"Hoje existe a facilidade de se comprar com cartão de crédito,
recorrer às financeiras, ao crédito consignado", lembra o analista
financeiro Roberto Ferreira, professor da Faculdade Boa Viagem (FBV).
De acordo com dados do Banco Central, entre junho e julho deste ano,
houve um crescimento de 15,4% no número de concessões de cartões de
crédito no país. De cada R$ 4 emprestados pelos bancos às pessoas
físicas, R$ 1 é no dinheiro de plástico.
A consequência da chuva de cartões parece óbvia. As dívidas
acumuladas até 31 de julho no cartão somavam R$ 26,49 bilhões. E 28,3%
dessas transações estavam com um atraso no pagamento de mais de 90
dias. No caso do crédito consignado - o famoso desconto em folha -
houve um aumento de 30,9% nas concessões entre agosto de 2008 e agosto
de 2009, em plena crise financeira internacional. "Os juros são
menores, mas as pessoas abusam", comenta Ferreira.
O acesso ao crédito é bom. Não existe um economista ou consultor que
seja contra. O que eles recomendam é cautela na hora de se jogar nele.
A consultora e educadora financeira Eliana Bussinger cita o exemplo dos
Estados Unidos. Até o estouro da crise, no segundo semestre do ano
passado, as famílias norte-americanas tinham, em média, 13 cartões de
crédito. A prática era usar o cartão como um complemento da renda,
aproveitando os juros baixos para pagar apenas o mínimo, rolando o
resto da dívida.
"Quanto mais fácil e barato o crédito, mais as pessoas se
endividam", diz Eliana. Ela destaca outro `incentivo` para o consumo
dos brasileiros: a abertura econômica. "Houve uma época em que as
pessoas iam para os Estados Unidos enlouquecidas atrás de um
videocassete", lembra. Com a abertura do início dos anos 1990, os
produtos começaram a entrar no país e a ser produzidos aqui mesmo,
atiçando o desejo consumista da população. Deu no que deu.
Fonte: Diário de Pernambuco
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